Páginas

domingo, 14 de agosto de 2011

"A Árvore da Vida" é poesia nos cinemas


Fiquei vários minutos sentado em frente à tela do computador, pensando em como escrever sobre "A Árvore da Vida", filme escrito e dirigido por Terrence Malick, e vencedor do Palma de Ouro em Cannes. Tanta indecisão tem um motivo: "A Árvore da Vida" não é um filme comum. Misturando teologia e filosofia, o diretor nos presenteia com um filme complexo e denso. Belíssimo em diversos aspectos e com uma forma não linear e subjetiva de explicar os fatos, o longa se mostra, na melhor das definições que consigo exprimir, uma "poesia em forma de filme".

Pode-se dizer que "A Árvore da Vida" tem dois focos: mostrar a difícil relação de um pai autoritário, uma mãe passiva e filhos submissos em contraponto à origem da vida (mostrada a lá documentário da National Geographic, ou seja, magistralmente por Douglas Trumbull, que estreou no ramo dos efeitos especiais com "2001 - Uma Odisséia no Espaço" e havia se despedido com nada menos que "Blade Runner") e questionar a existência, e atitudes, de um Deus sempre (?) presente. "Onde você estava quando meu irmão morreu?", questiona o jovem Jack (vivido por Sean Penn na fase adulta), quando perde o irmão mais velho, morto no exército aos 19 anos - apenas uma das respostas subjetivas que o filme apresenta.

Mas não há como negar: "A Árvore da Vida" é, com certeza absoluta, um dos filmes mais belos (em todas as suas definições possíveis) que eu já tive o prazer de ver na tela do cinema. Malick acerta em tudo aquilo que se propõe, e pode ser considerado um dos mais importantes cineastas, mesmo tendo uma produção pequena para o mundo cinematográfico (foram apenas cinco filmes em quatro décadas de trabalho).

Tanto cuidado com o filme é tangível ao assisti-lo. Somente a montagem demorou quatro anos para ficar pronta, na mão de cinco profissionais (entre eles, o brasileiro Daniel Rezende, responsável pelas montagens de Tropa de Elite 2 e Cidade de Deus). A fotografia é algo sublime, assim como a trilha sonora, que faz com que o espectador embarque no complexo roteiro apresentado pelo diretor. Roteiro esse diferente, sem seguir "a jornada do herói" estabelecida pelo cinema hollywoodiano. Ele flui, entra passado e futuro, sem se preocupar muito em situar o espectador - ele deve ligar os pontos soltos, novamente, de maneira subjetiva.

O diretor busca, há todo momento, por Deus. Ou questiona a existência da entidade. "Por que devo ser uma pessoa boa, se vou morrer como todos os outros", questiona-se o irmão mais velho. "A mão de Deus dá. E a mão de Deus tira", justifica Marick, à morte do mesmo. "O mesmo Deus que envia as moscas, deveria curar o ferimento", cutuca.

O fato é que "A Árvore da Vida" é algo totalmente diferente do que você está acostumado a assistir por ai. Ao final da projeção, na sala onde vi o filme, algumas pessoas riram. Outras acordaram. Isso mostra o quão o público brasileiro pode não estar preparado para produções tão complexas. A viagem de Jack pela sua infância nos brinda com um filme único, belo e sublime. É como uma poesia, só que no cinema.

Nenhum comentário:

Postar um comentário