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segunda-feira, 6 de abril de 2015

São Paulo, outrora Santidade Amorosa



 “...Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino. Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face...” – Ágape - São Paulo, aos Coríntios.

Uma vez assisti a uma entrevista de Pepe Mujica a TV Bandeirantes. Não me lembro 100% do conteúdo, mas em certo aspecto, ele condenava a burguesia industrial/financeira paulista por criar dificuldades ao desenvolvimento de políticas progressistas de desenvolvimento do comércio regional na América Latina e as implicações decorrentes de tais ações em todos os demais campos dos países da região.

Eu, baiano radicado em São Paulo por meus familiares há quase duas décadas, analisando tal comentário, coloquei-me a pensar sobre esse aspecto.

É fácil perceber (E muito mais fácil se você conhece outra região do país fora São Paulo) que há um pensamento esquisito em São Paulo: Temos ali de um lado, inegavelmente, o centro industrial/financeiro do país. Temos ali duas das mais conceituadas universidades públicas do país. Temos ali o maior centro consumidor do país. Temos ali a maior infraestrutura do país. Não vou aprofundar-me sobre os aspectos históricos que, em minha visão, foram condicionantes para tais status serem alcançados. Por outro lado, no estado mais desenvolvido da federação, se há a mínima percepção da intenção de descentralização de investimentos produtivos federais para outras regiões menos abastadas do país, fator preponderante para avançarmos como nação desenvolvida, cria-se uma rejeição instantânea. Um sentimento um tanto quanto arcaico e mesquinho.

São Paulo é mesmo um buquê. Que apesar de serem flores, estão mortas. (Já diria, genialmente, um Criolo.)

É importante não generalizarmos, mas é visível e notável, tanto para mim que sou um entre tantos radicados, quanto para os nativos dessa megalópole, que há uma forte resistência no estado à ideia de passar a competir com outra região o protagonismo econômico praticado pelo estado já a mais de um século. Se pensarmos de forma racional, mesmo com políticas descentralizantes do governo federal, tal protagonismo por outra região só será alcançado após outro século. Ou séculos.
Mais interessante que isso é uma análise mais aprofundada sobre o sentimento xenofóbico desenvolvido em São Paulo. Quando penso: Quem são os paulistas? Como posso identifica-los? Não me vem sequer uma característica física particular de tal estado. Acredito ser mais simples, em pensamento imaginário, definirmos caracteristicamente um amazonense, um gaúcho, um baiano. Mas e a cara do paulista? Qual é?

Não há cara definida. São Paulo recebeu gaúchos, amazonenses, baianos, paraibanos, italianos, chineses, japoneses, árabes, angolanos, haitianos, exatamente por estar a décadas no centro das políticas públicas do país... Enfim, São Paulo é essa imensidão por receber e misturar tantas culturas e etnias abruptamente através da centralização de investimentos, pois até o final do século XIX possuía apenas 40.000 habitantes. Então, como explicar tal rejeição aos imigrantes? É como juntarmos um pouco a ideia da laranja podre que contamina as demais com a ideia do “se não pode com eles, junte-se a eles”. Funciona assim: Há um xenofóbico. Que pratica a xenofobia com algum imigrante seja lá de onde ele for. Esse imigrante, como a laranja, se contamina, pois não aguenta aquele peso desagradável todos os dias. Esse mesmo imigrante também passa a praticar a xenofobia com os próximos imigrantes para se sentir parte do pacote de laranjas.

A outra pergunta que se faz necessária é: Quem e de que forma anda contaminando as laranjas? É uma praga natural? Porque essa praga sobre os laranjais é tão mais forte em São Paulo? Acho que muitos pensam que existe um sentimento natural em São Paulo. Eu penso que há formuladores sobre isso. Que tratam da resistência conservadora organizadamente e que se reproduzem com muito mais facilidade por se apoiarem nos meios de comunicação hegemônicos de que seus lacaios são donos.
Deve ser uma propriedade da tal globalização. Globalização de uma cultura hegemônica e cancerígena. A desculturação em São Paulo foi tão brutal que parte dos paulistas já não se identifica como brasileiros, efetivamente. Criaram identidade própria. Ou apropriada. Não há características culturais originais para se segurarem. São reféns de seu processo civilizatório.

Em certa medida, criticam ciclovias em São Paulo, mas desejam andar de bicicleta em Paris. São fãs dos ideais libertários da França, mas desde que a liberdade não se estenda ao subúrbio. Acham interessante a indústria automobilística dos Estados Unidos que foi salva pelo tesouro norte americano na crise de 2008, mas criticam o suporte e os subsídios do estado brasileiro a Petrobras. 

Batem palmas para a condenação de Berlusconi e seu mini-conglomerado de comunicação pela justiça italiana, mas acham um ataque a liberdade de imprensa regular o sistema de comunicações no Brasil que é controlado por 6 famílias e muito mais concentrado que o sistema italiano. Criticavam as sucessivas eleições de familiares dos Sarneys no Maranhão por décadas, mas elegem por décadas o PSDB. No Maranhão, já não há Sarneys no executivo. Já em São Paulo, nem que falte água... Etc.

Faz-se necessária uma análise mais aprofundada. Faz-se necessário um estudo sobre o tamanho do impacto negativo cultural, econômico, comercial desse sentimento paulista através do tempo. Faz-se necessário uma reflexão sobre tal comportamento do estado mais bem sucedido e mais bem promovido pelo estado brasileiro por sucessivas décadas. Faz-se necessário um estudo sobre os diversos movimentos de desestabilização política nascente em São Paulo através da história.

Pois é fácil sair na rua e pedir golpe de estado 3 meses depois da eleição de uma presidenta no processo democrático mais longo exercido por nossa jovem república. Difícil é fazer um mea-culpa pela “Marcha da Família com ‘Deus’ Pela Liberdade” que irrompeu no período mais obscuro e sangrento dessa mesma república.

 Acredito que o estado, estratégico pela centralidade, padece por ser vítima de interesses alheios que apenas a história, em sua particular beleza, nos contará detalhadamente.  Mas, no momento, agradeço ao destino por não estar mais a fazer parte dela.

Claudio Santana, 27 anos, economista e corinthiano. 


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