“...Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino. Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face...” – Ágape - São Paulo, aos Coríntios.
Uma vez assisti a uma entrevista de Pepe Mujica a TV
Bandeirantes. Não me lembro 100% do conteúdo, mas em certo aspecto, ele
condenava a burguesia industrial/financeira paulista por criar dificuldades ao
desenvolvimento de políticas progressistas de desenvolvimento do comércio
regional na América Latina e as implicações decorrentes de tais ações em todos
os demais campos dos países da região.
Eu, baiano radicado em São Paulo por meus familiares
há quase duas décadas, analisando tal comentário, coloquei-me a pensar sobre
esse aspecto.
É fácil perceber (E muito mais fácil se você conhece
outra região do país fora São Paulo) que há um pensamento esquisito em São
Paulo: Temos ali de um lado, inegavelmente, o centro industrial/financeiro do
país. Temos ali duas das mais conceituadas universidades públicas do país.
Temos ali o maior centro consumidor do país. Temos ali a maior infraestrutura
do país. Não vou aprofundar-me sobre os aspectos históricos que, em minha
visão, foram condicionantes para tais status serem alcançados. Por outro lado,
no estado mais desenvolvido da federação, se há a mínima percepção da intenção
de descentralização de investimentos produtivos federais para outras regiões
menos abastadas do país, fator preponderante para avançarmos como nação
desenvolvida, cria-se uma rejeição instantânea. Um sentimento um tanto quanto
arcaico e mesquinho.
São Paulo é mesmo um buquê. Que apesar de serem
flores, estão mortas. (Já diria, genialmente, um Criolo.)
É importante não generalizarmos, mas é visível e
notável, tanto para mim que sou um entre tantos radicados, quanto para os
nativos dessa megalópole, que há uma forte resistência no estado à ideia de
passar a competir com outra região o protagonismo econômico praticado pelo
estado já a mais de um século. Se pensarmos de forma racional, mesmo com
políticas descentralizantes do governo federal, tal protagonismo por outra
região só será alcançado após outro século. Ou séculos.
Mais interessante que isso é uma análise mais
aprofundada sobre o sentimento xenofóbico desenvolvido em São Paulo. Quando
penso: Quem são os paulistas? Como posso identifica-los? Não me vem sequer uma
característica física particular de tal estado. Acredito ser mais simples, em
pensamento imaginário, definirmos caracteristicamente um amazonense, um gaúcho,
um baiano. Mas e a cara do paulista? Qual é?
Não há cara definida. São Paulo recebeu gaúchos,
amazonenses, baianos, paraibanos, italianos, chineses, japoneses, árabes,
angolanos, haitianos, exatamente por estar a décadas no centro das políticas
públicas do país... Enfim, São Paulo é essa imensidão por receber e misturar
tantas culturas e etnias abruptamente através da centralização de investimentos,
pois até o final do século XIX possuía apenas 40.000 habitantes. Então, como
explicar tal rejeição aos imigrantes? É como juntarmos um pouco a ideia da
laranja podre que contamina as demais com a ideia do “se não pode com eles,
junte-se a eles”. Funciona assim: Há um xenofóbico. Que pratica a xenofobia com
algum imigrante seja lá de onde ele for. Esse imigrante, como a laranja, se
contamina, pois não aguenta aquele peso desagradável todos os dias. Esse mesmo
imigrante também passa a praticar a xenofobia com os próximos imigrantes para
se sentir parte do pacote de laranjas.
A outra pergunta que se faz necessária é: Quem e de
que forma anda contaminando as laranjas? É uma praga natural? Porque essa praga
sobre os laranjais é tão mais forte em São Paulo? Acho que muitos pensam que
existe um sentimento natural em São Paulo. Eu penso que há formuladores sobre
isso. Que tratam da resistência conservadora organizadamente e que se
reproduzem com muito mais facilidade por se apoiarem nos meios de comunicação
hegemônicos de que seus lacaios são donos.
Deve ser uma propriedade da tal globalização.
Globalização de uma cultura hegemônica e cancerígena. A desculturação em São
Paulo foi tão brutal que parte dos paulistas já não se identifica como
brasileiros, efetivamente. Criaram identidade própria. Ou apropriada. Não há
características culturais originais para se segurarem. São reféns de seu processo
civilizatório.
Em certa medida, criticam ciclovias em São Paulo,
mas desejam andar de bicicleta em Paris. São fãs dos ideais libertários da
França, mas desde que a liberdade não se estenda ao subúrbio. Acham
interessante a indústria automobilística dos Estados Unidos que foi salva pelo tesouro
norte americano na crise de 2008, mas criticam o suporte e os subsídios do
estado brasileiro a Petrobras.
Batem palmas para a condenação de Berlusconi e
seu mini-conglomerado de comunicação pela justiça italiana, mas acham um ataque
a liberdade de imprensa regular o sistema de comunicações no Brasil que é
controlado por 6 famílias e muito mais concentrado que o sistema italiano.
Criticavam as sucessivas eleições de familiares dos Sarneys no Maranhão por
décadas, mas elegem por décadas o PSDB. No Maranhão, já não há Sarneys no
executivo. Já em São Paulo, nem que falte água... Etc.
Faz-se necessária uma análise mais aprofundada.
Faz-se necessário um estudo sobre o tamanho do impacto negativo cultural,
econômico, comercial desse sentimento paulista através do tempo. Faz-se
necessário uma reflexão sobre tal comportamento do estado mais bem sucedido e
mais bem promovido pelo estado brasileiro por sucessivas décadas. Faz-se
necessário um estudo sobre os diversos movimentos de desestabilização política
nascente em São Paulo através da história.
Pois é fácil sair na rua e pedir golpe de estado 3
meses depois da eleição de uma presidenta no processo democrático mais longo
exercido por nossa jovem república. Difícil é fazer um mea-culpa pela “Marcha
da Família com ‘Deus’ Pela Liberdade” que irrompeu no período mais obscuro e
sangrento dessa mesma república.
Acredito que
o estado, estratégico pela centralidade, padece por ser vítima de interesses
alheios que apenas a história, em sua particular beleza, nos contará
detalhadamente. Mas, no momento,
agradeço ao destino por não estar mais a fazer parte dela.
Claudio Santana, 27 anos, economista e corinthiano.

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